Muita fé no ar

Nos últimos anos, a Televisão Brasileira ganhou um grande conteúdo Religioso em sua Programação, porém essa prática não é regulamentada e bastante controversa. Confira abaixo o debate e a opinião dos Profissionais de Mídia, Professores e Políticos (dentre eles, Geraldo Leite da Singular Arquitetura de Mídia), que foram convidados pelo Meio & Mensagem, sobre o significado e o efeito dessa conduta no setor publicitário.

Confira abaixo a matéria do site Meio & Mensagem

A qualquer hora do dia ou da noite, em pelo menos uma emissora de TV aberta do País, é certo: há um pastor evangélico celebrando cultos ou transmissão de eventos religiosos ligados às tradições protestantes, sobretudo as neopentecostais, que compram espaços comerciais na TV e o utilizam para transmitir seus conteúdos religiosos.

Os maiores clientes religiosos das emissoras do País são a Igreja Universal do Reino de Deus (bispo Edir Macedo), Igreja Mundial do Reino de Deus (apóstolo Valdemiro Santiago), Assembleia de Deus Vitória em Cristo (pastor Silas Malafaia) e Igreja Internacional da Graça (missionário R.R. Soares). Esta foi responsável pela aquisição de uma faixa no horário nobre da Bandeirantes, cujo contrato foi renovado em dezembro de 2011 por mais um ano, apesar de especulações do mercado de que a negociação não seria mais interessante para a família Saad, proprietária do grupo. Outras denominações menores e religiões também compram espaço publicitário para veiculação dos seus programas. Afiliadas e emissoras locais também reproduzem a prática em suas regiões. Procuradas para apresentar sua posição, Rede Record, Rede TV e Band — que mantêm contratos com igrejas — preferiram não se pronunciar.

Os católicos também estão na TV, embora tenham optado pelo caminho das concessões, e mantêm canais como Rede Vida, TV Canção Nova ou TV Aparecida.

A questão é polêmica. Por um lado, argumentam, trata-se de liberdade comercial e que as igrejas são clientes como os de quaisquer setores. Por outro, a prática seria ilegal, já que emissoras não poderiam transferir espaço que foi garantido mediante concessão pública. E, enfim, discute-se se a presença de clientes dessa natureza não canibaliza o mercado, derruba a audiência e diminui as alternativas de veiculação comercial tradicional.

Meio & Mensagem convidou profissionais de mídia, professores e políticos e perguntou qual é o significado e o efeito dessa conduta no setor publicitário. Embora todos concordem que a atitude é questionável, apresentam abordagens diferentes na interpretação do fenômeno: de questões jurídicas à percepção pública da presença dos telepastores na grade de programação das emissoras, o tema permanece sensível.

 

Luiza Erundina, deputada federal (PSB/SP) e integrante da Comissão de Ciência e Tecnologia, Informática e ComunicaçãoCrédito: Sergio Lima/Folhapress

Congresso

“Isso é uma irregularidade, uma ilegalidade que fere o artigo 5o da Constituição. É difícil avançar nesse debate porque é uma questão política e de interesses pessoais, já que muitos deputados e senadores são concessionários de rádio e televisão. Tudo o que questiona as regras e políticas de comunicação enfrenta resistência dos parlamentares e os empresários se recusam a comparecer nas audiências para discutir o arrendamento para as igrejas, ainda que nos contratos de concessão não exista a possibilidade de venda ou transferência de espaço para terceiros. A audiência que fizemos sobre o tema, à qual os empresários não compareceram, serviu para demonstrar que esse é um assunto que interessa à sociedade. Logo depois, entrei com uma ação no Ministério Público para que essa irregularidade fosse corrigida e que os responsáveis fossem cobrados, além de uma proposta de controle por parte do Tribunal de Contas da União. As emissoras vendem um espaço precioso, horas e horas do dia, e televisão é um serviço público. Nem mesmo o Congresso, órgão fiscalizador do Executivo, se interessa. Os parlamentares são coniventes.”

 

Geraldo Leite, sócio-diretor da Singular, Arquitetura de MidiaCrédito: Arquivo M&M

Consultor

“Arrendar espaços em emissoras é uma prática comum e antiga no País. São inúmeros casos a registrar, desde o histórico Programa Casé, no rádio, quando grandes cantores se apresentavam ao vivo, e o também exemplar caso do programa Silvio Santos, que começou alugando espaço até conseguir uma concessão especial de TV, quando da derrocada da Rede Tupi. O que se passa no momento — salvo raros exemplos de segmentos de público não atendidos pelas emissoras — é um exagero, uma distorção das políticas de comunicação, uma vez que TVs e rádios são concessões públicas e não deveriam ter seu espaço revendido, como um simples negócio a mais. Essa prática fica ainda pior quando o arrendamento é feito por igrejas, que ocupam o nosso espaço, com base no rico dinheirinho subtraído das parcelas de público mais simples e menos esclarecidas. Uma concessão governamental só deveria ser dada para grupos que tenham capacidade de produzir uma programação e se autossustentar legitimamente. É uma prática tão criticável como a dos ‘partidos de aluguel’. Canais que fazem assim, ou que se acostumaram a fazer assim, também deveriam ser caracterizados como ‘canais de aluguel’ e não simplesmente trair ou enganar o seu público ou cliente.”

 

Gleidys Salvanha, diretora-geral de mídia e atendimento da PublicisCrédito: Divulgação

Agência

“Os programas religiosos são importantes como fonte de receita de algumas emissoras brasileiras de televisão. É sabido que a audiência desses programas é baixa e isso não fica restrito ao seu período de exibição, comprometendo as audiências próximas do horário. Além disso, um telespectador nada interessado no conteúdo religioso que esteja zapeando pela TV pode ser afugentado ao passar pelo canal, e dificilmente vai voltar para ver se o programa acabou. Normalmente, a emissora também não consegue reter a audência do público fiel dos programas religiosos para as próximas atrações. Tudo isso é considerado na negociação dos espaços para programas religiosos. As igrejas e seus detentores pagam bem pela exibição de sua própria programação, tornando-se um negócio rentável para as emissoras. E as emissoras têm que se fazer valer de boas atrações anteriores ou posteriores aos programas religiosos, para tentar resgatar o público e valorizar novamente seu espaço publicitário, tornando-o atrativo para grandes anunciantes.”

 

Luiz Garcia, diretor de graduação da ESPM/SPCrédito: Divulgação

Academia

“Isso é um estranho sinalizador de uma realidade comercial, seja em estratégia ou em cash flow, das emissoras de televisão aberta que, de certa forma, estão vendendo por liquidez um horário que todo mundo supostamente desejaria comprar. A estratégia da Bandeirantes, por exemplo e por alguma razão que desconheço, trocou a lógica do risco e do retorno alto pelo dinheiro da poupança. Bem, quem tem dívidas para pagar acaba não querendo correr riscos. E eles não correm o risco da produção, já que a história está cheia de exemplos de gente que fez isso e não foi bem-sucedida. Para que transmitir um jornal nesse horário, já que eu vou perder, se posso veicular, antes ou depois, um jornal com grande credibilidade? Em vez de investir e tentar ganhar, eles escolheram ser conservadores. Por outro lado, num universo cada vez mais evangélico, de crescimento de classes populares, dar aos evangélicos o prime time não pode criar uma empatia com o canal? Para boa parte da população, a questão é relevante e isso pode ser percebido de maneira positiva.”

Matéria publicada no site do Meio&Mensagem,

na sessão Mídia,

dia 27 de fevereiro de 2012.


 

 

postado por admin em 28 de fevereiro de 2012, 15:14   |   0 comentários